Poucas doenças assustam tanto um pediatra quanto a doença meningocócica. Ela é causada pela bactéria Neisseria meningitidis, o meningococo, e pode se manifestar como meningite (inflamação das membranas que envolvem o cérebro) ou como uma infecção generalizada, a meningococcemia. O que a torna tão temida é a velocidade: uma criança que acorda apenas com febre e irritação pode, em poucas horas, estar em estado grave. Mesmo com tratamento adequado e rápido, cerca de uma em cada dez crianças acometidas morre, e entre as que sobrevivem uma parcela importante fica com sequelas permanentes, como surdez, amputações, lesões neurológicas e dificuldades de aprendizado.
O meningococo tem vários "tipos", chamados sorogrupos, e cada vacina protege contra sorogrupos específicos. No Brasil, o calendário público oferece há anos a vacina contra o sorogrupo C, e desde 2025 o reforço dos 12 meses passou a ser feito com a vacina ACWY, ampliando a proteção. Esse esforço deu resultado: os casos causados pelo sorogrupo C caíram muito. Só que, à medida que o C foi controlado, o sorogrupo B passou a ser o mais frequente entre os casos de doença meningocócica no país, sobretudo em bebês e crianças menores de cinco anos. E é justamente contra ele que ainda falta proteção na rotina da maioria das famílias.
A vacina meningocócica B existe, é segura e é recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pela Sociedade Brasileira de Imunizações para todas as crianças, começando aos 3 meses de vida. O esquema mais usado prevê duas doses no primeiro ano (aos 3 e 5 meses) e um reforço entre 12 e 15 meses. Ela também é indicada para adolescentes, que são a segunda faixa etária de maior risco e os principais portadores da bactéria na garganta, mesmo sem adoecer. Em ambos os casos, o pediatra ajusta o esquema conforme a idade em que a vacinação começa.
Vale ser transparente sobre um ponto: em abril de 2026, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar a vacina meningocócica B ao calendário do SUS, principalmente por questões de custo. Isso significa que, por enquanto, ela continua disponível apenas na rede privada, e cada dose tem um preço elevado. Muitas famílias interpretam essa ausência no posto de saúde como um sinal de que a vacina seria "menos importante". Não é o caso. A decisão foi orçamentária, não técnica: a própria avaliação reconhece que o sorogrupo B é hoje o mais comum no país e que a vacina funciona.
Como toda vacina, a meningocócica B pode causar reações, e é bom que os pais saibam disso de antemão para não se assustarem. A mais comum é a febre nas primeiras 24 horas após a aplicação, geralmente moderada e de curta duração, além de dor e vermelhidão no local e irritabilidade. Por isso, muitos pediatras orientam aplicar a meningocócica B em um dia diferente das outras vacinas do mesmo mês, para facilitar a identificação de qualquer reação. Nada disso se compara ao risco da doença que ela previne, e as reações costumam passar com medidas simples orientadas pelo pediatra.
Se o seu filho ainda não recebeu a vacina meningocócica B, ou se você não tem certeza se ela está na caderneta, leve essa dúvida à próxima consulta. A vacinação pode ser feita em qualquer idade, e nunca é tarde para começar. Proteger contra a meningite é uma daquelas decisões em que o benefício é enorme e o arrependimento, quando vem, costuma vir tarde demais. Converse com o seu pediatra: ele vai avaliar a idade, o histórico vacinal e a melhor forma de incluir essa proteção na rotina da sua família.
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